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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Lente de aumento

O fotógrafo olhava sua maior criação, a foto da mulher perfeita.
Ela não deveria ser tão fantástica, talvez nem perto disso. Porém, todos os seus poros inspiravam sua beleza estonteante.

Sempre parada no parque municipal, fazendo palavras cruzadas, ensaboada em sol, vestida de pano e com olhos de girassol.

Na vida de um fotografo, um clique e uma posição errada, significam uma má foto. Mas ela não conseguia ter um mal ângulo. Um fotógrafo tirando uma foto dela só poderia significar que Van Gogh estaria desenhando "Vaso de Cobre" novamente.

Um dia, perdendo a vergonha, resolveu perguntar se ela aceitaria tirar uma foto.

Ela riu com a idéia, mas recusou gentilmente.
Pelos próximos dias, o fotógrafo quis se mostrar mais presente, tirando foto das pessoas aleatórias no parque ou dos animais que por alí viviam em paz.

E ela apenas ignorava sua existência.

Vez por vez, centenas por centenas, o fotógrafo se desiludia.

Um dia, indo para a sua casa, desligou todas as luzes.
Desligou todas as luzes.

Foi morar dentro de sua câmera.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Dois Vasos Verdes Vazios, Preenchidos de Devoção, lá e de volta outra vez.

"Tudo terminou como começou, pai."

Disse a filha, segurando um disco de vinil. Os seus olhos eram raras pétalas amargas.
O seu vestido, azul, desbotado, agrupava-se com o máximo de atrito possível por sua pele.
Suas sandálias, verdes e feias, estavam em pés desviados da posição certa.
Com a maquiagem, roubada da mãe, borrada de tanto chorar.

A casa fedia a mofo. Só foi o tempo de João voltar de sua viagem, que lá encontrara tudo sujo.
Sua esposa afundada em um sono, afundando seu subconsciente em Whisky e Vodca.
A filha, chorando na sala, ouvindo um Viníl do Queen no toca discos.
A tevê e todos os eletrodomésticos quebrados.

"Filha, vem cá, o que houve?"

Por mais que parecesse calmo, tentava não se desesperar, até porque ele não sabia o que a pequena Maria tinha suportado nos últimos dias. Desistiu da fúria pela negligencia de sua mulher, agora perdida entre sonhos e esperanças em sua própria mente.

"Tudo, pai."
E chorou sem parar.

Ele sentiu um cheiro estranho, só para notar que vinha da própria Maria. A quanto tempo ela tinha tomado banho?
Viu alguns arranhões em seu braço quando ela tentou secar as lágrimas.

"Essa foi a primeira vez...?"
"Não..."

O pai, que antes estava de joelhos, levantara e caminhara para o quarto da mãe, no andar de cima, enquanto sua filha lhe dava a mão.

O chão, todo de madeira, gritava a cada passo. A agonia que João sentia não era pertencente à aritmética, tinha proporções caóticas.

Três dias de viagem para que o inferno ressuscitasse naquela casa. Amanda já tinha gritado e enlouquecido antes, mas nunca depois de terem sua primeira semente no solo do mundo. Ainda mais enlouquecido com ela.

Abriu a porta e ela observou a mãe, deitada em uma cama nojenta, onde pedaços de macarrão e molho se misturaram ao carpete, e o abajur entrara na Televisão, talvez para iluminar os circuitos internos.

Em desespero, a filha jogou-se no chão.

Abrindo a mala, o pai puxou uma pequena flor, e entregou-a. Suspirou fundo, tentando esconder suas lágrimas, e disse:

"Filha, papai já foi fraco, como a mamãe também já foi. Vou te contar uma história." - Parou para que suas lágrimas pudessem respirar. "Uma vez, houve uma rainha muito má. Eu a matei. Seu pai veio com uma espada, e enfiou-a em seu peito, como se a entregasse também uma rosa, e beijei seu cadáver. Ela voltou à vida como se florescesse em espanto. Andamos, criamos uma loja. Nos casamos, fiz-a vestir um vestido de rosas, só para que pudesse purificar-se sempre. Eu deixei o jardim morrer, filha. A culpa foi toda minha."

A filha não havia entendido, mas a voz confortável do pai a ajudara a reconfortar-se.

"Venha cá, minha pequena árvore. Vamos chorar juntos, não pela tristeza, mas pela renovação."

No dia seguinte, a mãe foi enterrada. Se mudaram para a loja do pai, tentaram viver felizes, e quase conseguiram. Mais velha, a filha perguntou ao pai:

-Pai... Uma coisa me vêm tirando o sono.
-Sim, filha, diga.
-Por que a culpa do jardim morrer, foi sua?

O pai pigarreou. Pediu para o assistente retirar-se.

-Porque, filha, eu me preocupei muito em podar as plantas ruins que cresciam, e acabei esquecendo de deixar sua mãe encontrar o equilíbrio. Fui pela cabeça de meus amigos, era inseguro de deixar que ela seja vista. Ela era minha planta mais perfeita. A rainha do meu jardim. Os poucos que viam ela eram privilegiados. Fui fraco, fui egoísta. Quis agradar a todos, e nunca agradei ela. A perdi para sempre. Colhi as suas plantas negras, mas nunca imaginei que ela as precisasse. Ela se afundou em insegurança e medo.

Quando terminou o monólogo, percebeu que a sua filha estava mais confusa ainda.

-Filha, pegue o seu lanche. Um dia eu te contarei melhor.
-Tá bom, pai...

Enquanto ela caminhava, ele olhou pela porta dos fundos, aonde na colina viu o túmulo de sua fadada esposa. Agora, onde um grande orvalho cinza havia nascido.

Mais tarde, o sino de que alguém entrava era presente.

Um rapaz, procurando uma flor para a amada.

O homem já sabia de onde iriam sair aquelas flores. De onde tudo começou, e se Deus quiser, não acabará por lá de novo.