"Dou valor às coisas quando elas ainda não sabem andar."
O repórter deixou de anotar essa frase em seu bloco. Virou para o preso - que com um sorriso estranho e irritadiço disse que estava negando a falsidade. Já estava condenado, não havia motivos para mentir. Não mais.
-Então, você gosta de crianças, senhor Victor?
-Não nesse tom. Não sou pedófilo. Eu acredito no milagre da vida enquanto ele impressiona.
-Como assim? Poderia detalhar mais?
-Mas é claro.
O residente número 279 hoje morava em uma pequena cela cinza. Uma única janela permitia a entrada de luz, mas, com barras de ferro estridentes e depressivas, negava a chance de liberdade.
Rodando sua cadeira de rodas no sentido contrário das barras, que separavam o repórter justo e o criminoso, dirigiu-se à sua cama.
Embaixo do travesseiro, retirou uma boneca de pano.
-Eu a fiz. Escondi do meu pai, para que ele não me chamasse de viado. Mas eu a fiz, e escondi. Até hoje, como pode ver, eu a escondo. Aqui, tente fazer-la andar.
-Isso, senhor - Disse o repórter rindo - é impossível.
-Qual é seu nome?
-Gabriel.
-Gabriel, você já viu um parto?
-Não.
-Você já viu um feto?
-Não.
-Você já viu um feto deformado?
Uma batida violenta é ouvida. Um guarda, com um porrete, fizera tremer as grades, pedindo para o prisioneiro parar.
-Então. Não. - Enfrentou-o.
-Então, veja. Aquele pequeno bolo de massa, com olhos fechados, e uma feição despregada de vida irá te surpreender.
Enquanto o repórter tentava imaginar a cena, em suspeitas de vômito, o residente voltava à posição inicial, de frente para a grade.
-Aí ele cresce. E você tem medo, tem medo que ele fique lá, parado, para sempre, nunca saia da barriga de sua mulher. Aí ela pari. É um sucesso, você é pai! Aí o filho demora a andar. E você tem medo dele ser retardado e não conseguir se movimentar.
Gabriel esperava que o guarda viesse salvar sua sanidade, mas esse já fora passear, cansado e entediado das baboseiras do presidiário. Pensou em gritar. Decidiu não.
-Aí, meu filho, ele se mexe. E aí, será que ele levanta? Levanta. É um medo. O maior medo é ele levantar. E ele levanta. A partir daí, você tem 80% de segurança dele ser uma pessoa normal. Caso provado que ele não é deficiente mental, pronto. Sua única preocupação como pai é fazer-lo ganhar o mundo.
-E... E a partir daí que ele não ganha mais sua confiança?
-Claro que não ganha. Ele é embutido de ganhar o mundo, aprender coisas que irão desafiar e moldar seu caráter. Aprende que ele tem um caminho seguro e retilíneo. Ele esquece de todo o mundo em volta, só se importa em andar. Andar, andar, andar, andar. São poucos os que decidem olhar em volta. Eu julgo o aprendizado à andar uma preparação para o mundo moderno.
Victor engasga.
-E eu tenho medo - ele escarra no chão - do mundo moderno.
-Então, senhor, isso é uma metáfora?
-Não, filho. São apenas bobeiras de um velho presidiário.
Após segundos de silêncio, Victor bate na grade.
-É claro que é uma metáfora! - Ecoa o grito junto com o soar das grades tenebrosas.
-Opa! - Diz Gabriel, jogando-se para trás em um teor de susto. Ele consegue ouvir passos. Ajuda.
-Eu tenho medo do mundo moderno porque o homem acha que sabe de tudo!
Guardas são vistos no horizonte, dois na verdade.
-Gabriel, você tem certeza que essa boneca não anda? Pois tenha medo. Medo é o que nos faz evoluir. Depois que andamos, quase não temos mais medo de cair!
Um dos guardas abre a porta, outro puxa um Taser. O repórter vira as costas e vai embora.
Após andar alguns metros, ouviu as descargas e os gritos. Decidira voltar e pegar a boneca.
E, quando o fizera, vira o homem jogado em seu próprio corpo. A cadeira era levada por um guarda, enfurecido. O outro examina a cela.
Gabriel foi embora com medo que ele tivesse morrido.
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terça-feira, 11 de dezembro de 2012
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Dois Vasos Verdes Vazios, Preenchidos de Emoção
Apaixonado por uma mulher, entrei na loja de flores. Não sabia o que comprar, não sabia qual daquelas metonímias da natureza eu iria levar, não sabia escolher um grupo para atiçar o amor. Não sabia nem se ao menos ela iria aceitar, ou se eu iria ter coragem de entregar.
O dono olhou pra mim vestido com seus óculos, embaçados. A loja praticamente toda vestida de madeira, até mais do que seria necessário. As paredes eram preenchidas por tábuas, uma colada do lado da outra. O chão, este de granito, chegava a ser escorregadio de tão limpo. O teto, de palha. Era uma cabana. Ou parecia ser.
Ele possuía o cabelo repartido ao meio, e escorrido para os lados. Rugas eram visíveis, especialmente perto dos olhos. Estava perfeitamente barbeado. Sua camisa social era posta dentro da calça, e as luvas estavam sujas com terra. Era tudo que consegui ver enquanto ele estava no balcão, mexendo em um ou dois vasos.
-Bom dia.
-Bom dia!
Meu caloroso comprimento o fez abrir um sorriso. Enquanto ele cuidava dos seus afazeres, eu sonhava em entregar o presente. Seria em uma floresta, ela viria com o vestido coberto de girassóis. O raio de sol seria refletido em todos os ângulos dessa mulher, minha mais nova obsessão. Entregaria para ela, e nos beijaríamos, enquanto eu sentiria ainda toda a vegetação que acompanhasse seu vestido roçar durante meu corpo.
Passando os dedos, escolhi uma. Não sou especialista, já disse isso. Mas aquele verde, era o dos olhos dela. Exatamente daquele profundo e claro verde. Daquele oceano misterioso, formado de algas e vida, que residia naquela face tão serena.
Uma flor verde, quem diria.
Levei ao caixa, não sei porquê. Talvez entregasse para um mendigo na volta à casa, ou para a minha mãe. Não fazia diferença.
-Olá - esperei ele parar de realizar suas tarefas e me encarar com seus óculos turvos - Eu gostaria de levar essa flor. Quanto custa?
Ele tirou-a de minha mão e a segurou delicadamente. Com certeza para demonstrar que eu não estava sabendo manipular aquele fragmento de beleza natural.
-Não são todos que escolhem uma flor dessas. Posso perguntar qual é a ocasião?
-Claro. Na verdade, nem eu sei ao certo. Lembrei de uma garota, e quis comprar. É mais pela intenção, não que eu chegue a entregar-la. Na verdade, só nos falamos uma vez. Ela é a mulher da minha vida, sei disso.
Desabafei. Precisava disso. Contar meus problemas, e esperar que ele tivesse passado pela mesma coisa. E que seria a esposa dele, e que estivessem juntos depois de anos. Esperava que ele contasse que era igual a mim, que iria acontecer um certo número de incidentes, e tudo daria certo.
-Se ela te causou este sentimento, meu filho, ela deve ser muito bonita.
-A mais bonita de todas as regiões que eu já passei, senhor. América, Europa. Nenhuma equipara aos olhos dela.
-Você já a chamou para sair?
-Ela não me dá bola. Não gosta de mim.
-Qual o nome dela, filho? Ela estuda por aqui por perto?
Contei toda a jornada de meu amor platônico. Como minha alma se alegrara em nossa pequena e única conversa, e como os olhos dela vigiavam meus sonhos como um fantasma vingativo.
-Faça o seguinte, largue essa flor. Eu vou te ajudar. Enquanto isso, amanhã aborde-a, descaradamente. Fale que um homem do correio a procurava. Mandarei meu assistente ajudar, se passando. Ele encaminhará a sua amada até aqui, e entregarei a flor para que você entregue a ela. Assim você não perde o dinheiro a toa.
Era muito melhor do que eu esperava. Só esperava ter coragem. Deixei minha promessa e um pouco de esperança. Fui dormir, ou tentar. Minha esperança estava solta, era um iludido e um alienado. Eu estava apaixonado.
Acordei. Falei com ela, não sei com qual motivação, mas consegui. O assistente, um homem negro e baixo, parou com uma moto amarela, me fez um sinal antes de conversar com ela propriamente. Após terminada, ela andou em passo acelerado. Deixei-a ir um pouco mais a frente, para que chegasse um pouco depois, mas continuei a seguir-la.
A vi entrando na loja. Aquele senhor poderia salvar minha vida amorosa, só não tinha certeza se deveria entrar. Fechei os olhos, respirei, atravessei a rua. Por um triz não fui atropelado, ao ponto em que estava me sentindo indestrutível, e não liguei nem para o sinal, nem para a faixa de pedestres.
-Bom dia! - Exclamei ao entrar na loja.
Ela com cara de surpresa, olhou para mim e para o vendedor.
-Olá, senhor. Aqui está a flor que você pediu para a sua mãe.
Ele me entregou o saco com duas flores, verdes, com cheiro forte e duradouro.
-Agora, filha, porque não leva o homem até a saída da loja? Ele é um freguês.
-Poxa, pai. Fiquei preocupada, você me pediu pra eu vir correndo, achei que tinha acontecido alguma coisa.
-Querida, aconteceu. Mas você só saberá muito depois.
Aos passos tímidos, andamos lado a lado. Ao chegar na porta, ela olhou para mim vermelha, porém simpática. Examinei o saco e fiz o cálculo, tinha uma flor a mais do que eu tinha pago adiantado no dia anterior. Entreguei a ela:
-Por favor, veio a mais uma flor. Pode entregar ao seu pai?
Dei a ela como se desse uma confissão. Ela abraçou a flor como se não se importasse com os espinhos.
-Ok. Muito obrigada!
Acenei com a cabeça e beijei-a duas vezes no rosto, como despedida.
Virei as costas, mas ainda consegui ouvir quando o pai chegou perto dela, e travaram um dialogo.
-Pai, sobrou essa.
-Filha, tudo bem. Guarde para você. Use para fazer aquele vestido que você tanto queria, que a sua mãe tinha, rodeado de flores da primavera.
E as folhas cairam ao som do amor incerto.
O dono olhou pra mim vestido com seus óculos, embaçados. A loja praticamente toda vestida de madeira, até mais do que seria necessário. As paredes eram preenchidas por tábuas, uma colada do lado da outra. O chão, este de granito, chegava a ser escorregadio de tão limpo. O teto, de palha. Era uma cabana. Ou parecia ser.
Ele possuía o cabelo repartido ao meio, e escorrido para os lados. Rugas eram visíveis, especialmente perto dos olhos. Estava perfeitamente barbeado. Sua camisa social era posta dentro da calça, e as luvas estavam sujas com terra. Era tudo que consegui ver enquanto ele estava no balcão, mexendo em um ou dois vasos.
-Bom dia.
-Bom dia!
Meu caloroso comprimento o fez abrir um sorriso. Enquanto ele cuidava dos seus afazeres, eu sonhava em entregar o presente. Seria em uma floresta, ela viria com o vestido coberto de girassóis. O raio de sol seria refletido em todos os ângulos dessa mulher, minha mais nova obsessão. Entregaria para ela, e nos beijaríamos, enquanto eu sentiria ainda toda a vegetação que acompanhasse seu vestido roçar durante meu corpo.
Passando os dedos, escolhi uma. Não sou especialista, já disse isso. Mas aquele verde, era o dos olhos dela. Exatamente daquele profundo e claro verde. Daquele oceano misterioso, formado de algas e vida, que residia naquela face tão serena.
Uma flor verde, quem diria.
Levei ao caixa, não sei porquê. Talvez entregasse para um mendigo na volta à casa, ou para a minha mãe. Não fazia diferença.
-Olá - esperei ele parar de realizar suas tarefas e me encarar com seus óculos turvos - Eu gostaria de levar essa flor. Quanto custa?
Ele tirou-a de minha mão e a segurou delicadamente. Com certeza para demonstrar que eu não estava sabendo manipular aquele fragmento de beleza natural.
-Não são todos que escolhem uma flor dessas. Posso perguntar qual é a ocasião?
-Claro. Na verdade, nem eu sei ao certo. Lembrei de uma garota, e quis comprar. É mais pela intenção, não que eu chegue a entregar-la. Na verdade, só nos falamos uma vez. Ela é a mulher da minha vida, sei disso.
Desabafei. Precisava disso. Contar meus problemas, e esperar que ele tivesse passado pela mesma coisa. E que seria a esposa dele, e que estivessem juntos depois de anos. Esperava que ele contasse que era igual a mim, que iria acontecer um certo número de incidentes, e tudo daria certo.
-Se ela te causou este sentimento, meu filho, ela deve ser muito bonita.
-A mais bonita de todas as regiões que eu já passei, senhor. América, Europa. Nenhuma equipara aos olhos dela.
-Você já a chamou para sair?
-Ela não me dá bola. Não gosta de mim.
-Qual o nome dela, filho? Ela estuda por aqui por perto?
Contei toda a jornada de meu amor platônico. Como minha alma se alegrara em nossa pequena e única conversa, e como os olhos dela vigiavam meus sonhos como um fantasma vingativo.
-Faça o seguinte, largue essa flor. Eu vou te ajudar. Enquanto isso, amanhã aborde-a, descaradamente. Fale que um homem do correio a procurava. Mandarei meu assistente ajudar, se passando. Ele encaminhará a sua amada até aqui, e entregarei a flor para que você entregue a ela. Assim você não perde o dinheiro a toa.
Era muito melhor do que eu esperava. Só esperava ter coragem. Deixei minha promessa e um pouco de esperança. Fui dormir, ou tentar. Minha esperança estava solta, era um iludido e um alienado. Eu estava apaixonado.
Acordei. Falei com ela, não sei com qual motivação, mas consegui. O assistente, um homem negro e baixo, parou com uma moto amarela, me fez um sinal antes de conversar com ela propriamente. Após terminada, ela andou em passo acelerado. Deixei-a ir um pouco mais a frente, para que chegasse um pouco depois, mas continuei a seguir-la.
A vi entrando na loja. Aquele senhor poderia salvar minha vida amorosa, só não tinha certeza se deveria entrar. Fechei os olhos, respirei, atravessei a rua. Por um triz não fui atropelado, ao ponto em que estava me sentindo indestrutível, e não liguei nem para o sinal, nem para a faixa de pedestres.
-Bom dia! - Exclamei ao entrar na loja.
Ela com cara de surpresa, olhou para mim e para o vendedor.
-Olá, senhor. Aqui está a flor que você pediu para a sua mãe.
Ele me entregou o saco com duas flores, verdes, com cheiro forte e duradouro.
-Agora, filha, porque não leva o homem até a saída da loja? Ele é um freguês.
-Poxa, pai. Fiquei preocupada, você me pediu pra eu vir correndo, achei que tinha acontecido alguma coisa.
-Querida, aconteceu. Mas você só saberá muito depois.
Aos passos tímidos, andamos lado a lado. Ao chegar na porta, ela olhou para mim vermelha, porém simpática. Examinei o saco e fiz o cálculo, tinha uma flor a mais do que eu tinha pago adiantado no dia anterior. Entreguei a ela:
-Por favor, veio a mais uma flor. Pode entregar ao seu pai?
Dei a ela como se desse uma confissão. Ela abraçou a flor como se não se importasse com os espinhos.
-Ok. Muito obrigada!
Acenei com a cabeça e beijei-a duas vezes no rosto, como despedida.
Virei as costas, mas ainda consegui ouvir quando o pai chegou perto dela, e travaram um dialogo.
-Pai, sobrou essa.
-Filha, tudo bem. Guarde para você. Use para fazer aquele vestido que você tanto queria, que a sua mãe tinha, rodeado de flores da primavera.
E as folhas cairam ao som do amor incerto.
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